O Rico Outono

Categorias:

Encontramo-nos no Outono.
A estação do ano que me escolheu para nascer e concomitantemente renascer a cada ano. É nesta estação do ano recheada de significados que busco enriquecer as minhas percepções, as minhas sensações e as minhas emoções. É com ela que me reorganizo, me reestruturo, reflito sobre a vida, sobre mim própria. O Outono é uma época de transição entre extremos de temperatura, ora faz sol, ora chove, ora está calor, ora está frio, comparativamente a muitos momentos do meu estado de espiríto.
Mas é nesta estação que a natureza nos mostra mais uma vez a sua beleza e a sua sabedoria.
As folhas caem, as árvores ficam despidas, é hora de mudança, tempo de desapego, de deixar ir aquilo que não nos serve mais, daquilo que esteja impedindo os nossos passos o nosso crescimento.
Como tudo na natureza, os nossos processos de mudança carecem de tempo para se instalarem.
Se estivermos atentos aos detalhes da natureza conseguimos perceber que cada estação do ano traz mensagens a cada um de nós. Em cada estação do ano, poderemos encontrar uma série de aprendizagens para a vida.
É nestre encontro e reencontro comigo mesma que hoje sinto a necessidade de partilhar convosco uma parte de mim, a de ser filha, porque é nesta estação que me sinto pequenina, que me proponho a ressurgir, que me proponho a encontrar-me e há pensamentos que só ganham dimensão dentro de nós quando os dizemos a alguém, ainda que seja assim como o estou a fazer. É nesta descoberta comigo mesma que procuro o cerne do meu ser e vou encontrando os caminhos que contribuiram para a construção do meu ser. E é aí que me encontro como filha, o que fui, o que sou e o que serei.
Cada dia que passa, sinto e valorizo tudo aquilo que os meus pais fizeram por mim, o que tiveram de viver para proporcionar a mim e aos meus irmãos, aquilo que somos hoje, uma vida repleta de valores, princípios, crenças, conhecimentos e aprendizagens, que de algum modo proporcionaram uma educação cheia de ensinamentos e verdades que só a eles lhes posso agradecer. Deram-nos tantas coisas, cheias de valor e importância para a vida.
Tantas e tantas vezes, páro e penso nos momentos que vivi em família com os meus pais e com os meus irmãos, momentos esses tão felizes, alguns menos felizes, mas que de algum modo contribuiram e reproduziram efeito na minha construção. Momentos esses tão cheios de vida, tão verdadeiros e são esses momentos que me personificam, onde mergulho muitas vezes à procura de energia e de força.
Enquanto filha, sinto uma enorme gratidão pela vida, pelos pais que tenho pelos milésimos de segundo que vivemos e continuamos a viver.
Quando era pequenina lembro-me de acompanhar a minha mãe nas “lidas” dela, em ir ceifar a erva para os animais nos terrenos da família e eu ficava perto dela a vê-la a fazer aquela “lida” tão dura e que eu não podia ajudar, limitava-me a brincar com a erva e com os paus e pedras que eu conseguia vislumbrar, momentos tão felizes e que continuam tão vivos na minha memória.
Recordo-me quando a minha mãe ía lavar a roupa à mão no “rigueiro da ponte”, pois naquele tempo as máquinas de lavar roupa eram escassas e só as famílias de grandes posses é que as possuíam. Mas nós, eu e a minha mãe, íamos lavar a roupa naquele ribeiro de água translúcida, onde as plantas nasciam e cresciam dentro de água e germinavam pelo ribeiro de tão limpído que era. Nesse ribeiro, enquanto a minha mãe se esforçava para lavar toda aquela roupa esfregando-a numa pedra dura, eu saltava de pedra em pedra, rebentava as bolas de sabão formadas por aquele sabão cheiroso, que ainda hoje sinto o cheiro e mergulhava naquela água fria e cristalina embrulhando-me de alegria e euforia, pois era a minha mãe que me proporcionava toda aquela felicidade.
Recordo-me de ir para a oficina do meu pai remexer nas peças banhadas de óleo e querendo ajudar “enfarruscava-me” de óleo e afins no corpo e na roupa. O meu pai via a minha figura mas da sua boca só via sorrisos de prazer, pela alegria de me ver naquele estado de bem-estar.
Recordo igualmente os momentos em que os olhares de repreensão nos punham na ordem, uma ordem de mão firme num caminho de verdade e de valores, que me valem hoje de guia como mãe. São valores que passam de pais para filhos de filhos para netos, e que me orgulho de ter tido e de no meu melhor tentar transmitir como mãe.
São esses momentos que fortaleceram as minhas raízes.
Aos meus pais devo toda esta felicidade, a oportunidade de ter sido uma criança feliz, de me construir como uma filha munida de experiências, vivências, sentimentos que me permitem ser uma filha presente e atenta.
Sentir-me como filha, é amando a minha mãe e o meu pai, estar ao lado deles é ampará-los e protegê-los, sentir que eles sentem a minha presença e o meu amor.
É o seu brilho nos olhos a ver a felicidade do que construiram que me faz acreditar que nada há mais puro e verdadeiro que o amor de pai e mãe.

 

avatar
A autora
Chef Anabela Almeida

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *